Marcelo Fischborn

Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

  • O texto abaixo é o sexto capítulo de meu livro Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia (Campinas: Pontes Editores, 2025). Após o texto, há um exemplo de atividade de compreensão textual baseada no capítulo.

    Livro: Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia. Autor: Marcelo Fischborn
    Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

    A julgar por quanto gastam em apostas, muitas pessoas acreditam que um dia ganharão na loteria. Só no Brasil, esse valor tem passado dos 20 bilhões de reais por ano. Alguns apostadores chegam a dizer que sabiam que ganhariam. Isso aconteceu com dois australianos. Um deles, cujo nome não foi divulgado, disse ter recebido a revelação em um sonho, três semanas antes do resultado. O segundo, o matemático Stefan Mandel, disse que “sabia que ganharia um primeiro prêmio, seis segundos prêmios, 132 terceiros prêmios e milhares de prêmios menores”. Mas será mesmo adequado dizer que sabiam que ganhariam o prêmio? Para responder a essa pergunta, precisamos continuar nossa caminhada com Platão e examinar uma terceira condição que considerou necessária para o conhecimento proposicional: a justificação. Como veremos, a justificação tem proximidade com o argumento, mais um item para adicionarmos à nossa caixa de ferramentas filosóficas.

    Quando encaramos a justificação como condição necessária para o conhecimento, a ideia subjacente é que ter conhecimento sobre um assunto envolve mais do que ter uma crença verdadeira. É necessário também conseguir dizer por que deveríamos aceitar a verdade da proposição em questão, isto é, fornecer uma razão para considerá-la verdadeira. Voltando à nossa analogia, se acreditar é como confiar que uma carta inserida no castelo ficará em pé e se a verdade depende do que acontece com a carta quando a soltamos, podemos entender a justificação como um esforço para posicionar bem a carta junto às demais antes de soltá-la.

    Como fizemos antes, para dizer se determinadas condições são necessárias para alguma coisa, podemos usar o raciocínio e a imaginação e construir um experimento de pensamento. Dessa vez, vamos nos inspirar nos sortudos australianos e imaginar três situações em que alguém acredita que ganhará na loteria na próxima sexta-feira. As situações são como descritas a seguir.

    Situação 1. Como o australiano anônimo, Marta acredita que ganhará na loteria porque apostou em números relacionados a um sonho muito especial que teve na semana passada. Marta já jogou em números relacionados aos seus sonhos antes, já acreditou fortemente que ganharia, mas até agora nunca ganhou o prêmio. Como sua crença está baseada em uma superstição que até então apenas falhou, podemos dizer que essa é uma justificação ruim para acreditar que ganhará o prêmio.

    Situação 2. Como apostadores menos convictos, Júlio acredita que ganhará o prêmio, mas por nenhuma razão especial. Ele pensa que admitir friamente a insignificância de suas chances não ajudará em nada e, por isso, prefere acreditar que vai ganhar. Sua crença não tem, portanto, nenhuma justificação significativa.

    Situação 3. Como o matemático Mandel, Ícaro acredita que ganhará na loteria porque colocará em prática um plano bem elaborado para vencer. Ele estudou as probabilidades do sistema lotérico, tentará esgotá-las com milhões de apostas e já venceu mais de dez prêmios dessa maneira. Por isso, sua situação é diferente da dos demais: ele tem uma boa razão para acreditar que ganhará o prêmio. Ele foi cuidadoso o suficiente ao conectar sua carta ao restante do castelo, recorrendo a um plano completo capaz de transformar em realidade o desejo de vencer.

    Vamos imaginar ainda que, nas três situações imaginadas, os apostadores ganham na loteria na próxima sexta-feira, ou seja, que a proposição em que cada um acredita é verdadeira.

    Qual das três pessoas imaginadas deveríamos dizer que sabia que ganharia na loteria na próxima sexta-feira? É sobre esta questão que precisamos refletir para concluir nosso experimento de pensamento. Se você pensa como Platão e diversos outros filósofos que se dedicaram ao assunto, considerará mais razoável dizer que apenas Ícaro sabia que ganharia o prêmio. Os outros dois apenas tiveram sorte, não apenas de vencer o prêmio, mas de acreditar em uma proposição, sem ter uma boa razão para fazê-lo, e a proposição acabar se tornando verdadeira. Isso levou uma grande tradição filosófica a defender que, para haver conhecimento proposicional, é necessário que se (1) acredite em uma proposição, (2) que essa crença esteja apoiada em uma boa justificação e (3) que a proposição seja verdadeira.

    Buscar acreditar apenas em proposições amparadas em boa justificação é uma das coisas mais importantes a fazer se quisermos pensar melhor. Fazer isso é apostar que a razão humana, quando bem conduzida, oferece o melhor caminho disponível para conhecermos a realidade. Para levar esse ideal adiante, precisamos desenvolver estratégias para, em primeiro lugar, identificar a presença de uma justificação e, em segundo, poder avaliá-la.

    Uma das maneiras mais simples em que uma justificação se apresenta é em frases como as que vimos antes: “Ícaro ganhará na loteria porque colocará em prática um plano bem elaborado para vencer”. A expressão “porque” divide a frase em duas partes com papéis diferentes na justificação: a proposição posterior a ela justifica a proposição que a antecede. Em outras palavras, a proposição que vem antes de “porque” recebe justificação da proposição que vem depois.

    Uma segunda maneira de apresentar uma justificação é na forma de um argumento explícito. Um argumento é um conjunto de proposições em que algumas (chamadas de premissas) são oferecidas em apoio a outra (chamada de conclusão). Podemos reapresentar a justificação anterior com o seguinte argumento:

    Premissa 1: Ícaro tem um plano bem elaborado para vencer na loteria. Premissa 2: Ícaro colocará o plano em prática.


    Conclusão: Ícaro ganhará na loteria.

    A barra horizontal, chamada de barra de conclusão, pode ser lida como um “logo”, “portanto” ou “por isso”. Ela divide o argumento em duas partes. As proposições localizadas acima da barra são as premissas do argumento e buscam justificar a conclusão, localizada abaixo dela. Podemos dizer que justificar uma proposição é argumentar a seu favor.

    Tornar um argumento explícito é uma prática que pode nos ajudar a pensar melhor. Ao refletir sobre o que nos leva a acreditar em algo, por vezes concluiremos que alguma crença não estava amparada em boas razões. Essa reflexão é uma forma de examinar criticamente a maneira como pensamos, como se estivéssemos inspecionando as conexões entre as partes de nosso castelo de cartas. Podemos recorrer a argumentos para pensar sobre a justificação de proposições que tratam dos mais variados assuntos, incluindo o mundo natural e humano, os números, os conceitos e os valores. No restante do livro, examinaremos várias propostas sobre o que torna uma justificação boa ou adequada, dependendo do tipo de questão que estivermos considerando.

    Podemos resumir o que vimos neste capítulo assim: para termos conhecimento proposicional, precisamos não apenas acreditar em uma proposição verdadeira, mas também fazê-lo com base em uma boa justificação. Justificar uma crença é apresentar uma razão para aceitar a sua verdade e podemos explicitar essa razão na forma de premissas a favor de uma conclusão. Os capítulos seguintes tratam de alguns tipos de argumento que se mostraram bem-sucedidos na tarefa de justificar o conhecimento. Examinar esses argumentos nos permitirá refletir sobre por que pensamos da maneira como pensamos quanto a uma variedade de assuntos, tanto na filosofia quanto fora dela.

    Nota: Capítulo 6. Célia Teixeira (2012) trata da relação entre justificação e conhecimento e Cezar Mortari (2001, Capítulo 1) aborda a conexão entre argumentos e justificação. Sobre apostadores brasileiros, ver Jéssica Anjos (2024). Sobre os australianos ver as reportagens “Australiano usa […]” (2023) e “Australian man […]” (2018)..

    Atividade:

    Este é um exemplo de uma atividade de compreensão textual realizada em uma aula de filosofia no ensino médio. Ela foi produzida no contexto de minhas aulas no Instituto Federal Farroupilha e pode ser reproduzida e adaptada livremente–preferencialmente com devido crédito ;)

    Para ter suas respostas corrigidas, acesse esta versão no Google Forms.

    Professores podem baixar uma cópia do formulário para enviar aos seus estudantes.

    As questões abaixo devem ser respondidas de acordo com o texto “Justificação e argumento”. Analise com atenção, marque primeiramente a lápis e depois confirme a resposta final à caneta. Bom trabalho!

    1. Considere os enunciados abaixo:

    I. Justificar uma proposição é dizer por que deveríamos aceitar a verdade dessa proposição.

    II. Podemos pensar de maneira mais qualificada se refletirmos sobre o que justifica nossas crenças.

    São verdadeiros:
    ( ) apenas I
    ( ) I e II
    ( ) apenas II
    ( ) nenhum

    2. Considere os enunciados abaixo:

    I. Segundo o texto, Marta tinha a crença verdadeira de que ganharia na loteria, mas ainda assim não tinha conhecimento.

    II. Segundo o texto, Ícaro tinha uma boa justificação para acreditar que ganharia na loteria na próxima sexta-feira.

    São verdadeiros:
    ( ) apenas I
    ( ) I e II
    ( ) apenas II
    ( ) nenhum

    3. Considere os enunciados abaixo:

    I. Segundo Platão, crença, verdade e justificação são condições necessárias para o conhecimento proposicional.

    II. Segundo Platão, uma pessoa pode saber que 3+7=12, desde que tenha uma boa justificação para pensar assim.

    São verdadeiros:
    ( ) apenas I
    ( ) I e II
    ( ) apenas II
    ( ) nenhum

    4. Analise o argumento abaixo:

    (1) Todo brasileiro é humano.

    (2) Todo humano é mortal.


    (3) Todo brasileiro é mortal.

    Considerando o argumento, marque a única alternativa incorreta:
    ( ) As proposições (1) e (2) são as premissas do argumento.
    ( ) A proposição (3) é justificada pelas premissas.
    ( ) A proposição (3) justifica as proposições (1) e (2).
    ( ) As proposições (1) e (2) dão uma razão para aceitar a verdade da proposição (3).

    5. Suponha que Alice acredite que há maçãs maduras atrás da cortina, que a crença de Alice é verdadeira, mas que Alice não tem uma boa justificação para essa crença.

    I. Alice sabe que há maçãs maduras atrás da cortina.

    II. Uma outra pessoa poderia saber que há maçãs maduras atrás da cortina.

    São verdadeiros:
    ( ) I e II
    ( ) apenas I
    ( ) apenas II
    ( ) nenhum

  • A passagem abaixo nos ajuda a abordar alguns aspectos do contraste entre empirismo e racionalismo. Nesta passagem, René Descartes (1596-1650) defende que entendemos algumas coisas não a partir dos sentidos, mas a partir de uma inspeção da mente, algo que alguns chamam de intuição. Ainda que a distinção entre empirismo e racionalismo seja mais sutil do que geralmente se suponha, Descartes é geralmente classificado como um racionalista, ao lado de filósofos como Leibniz e Espinoza. O comprometimento aqui é com a tese de que alguns conhecimentos ou conceitos não são derivados da experiência sensorial, muitas vezes com foco em conhecimentos de tipo metafísico ou matemático. No campo oposto, são classificados como empiristas filósofos como Locke, Hume e Reid, comprometidos com afirmar que o conhecimento, em geral ou em algum tema particular, depende sempre do que aprendemos com os sentidos.

    “Comecemos pela consideração das coisas mais comuns e que acreditamos compreender mais distintamente, a saber, os corpos que tocamos e que vemos. Não pretendo falar dos corpos em geral, pois essas noções gerais são ordinariamente mais confusas, porém de qualquer corpo em particular. Tomemos, por exemplo, este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele não perdeu ainda a doçura do mel que continha, retém ainda algo do odor das flores de que foi recolhido; sua cor, sua figura, sua grandeza, são patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se nele batermos, produzirá algum som. Enfim, todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo encontram-se neste.

    Mas eis que, enquanto falo, é aproximado do fogo: o que nele restava de sabor exala-se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som produzirá. A mesma cera permanece após essa modificação? Cumpre confessar que permanece: e ninguém o pode negar. O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo o que notei nela por intermédio dos sentidos, posto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontram-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece. Talvez fosse como penso atualmente, a saber, que a cera não era nem essa doçura do mel, nem esse agradável odor das flores, nem essa brancura, nem essa figura, nem esse som, mas somente um corpo que um pouco antes me aparecia sob certas formas e que agora se faz notar sob outras. Mas o que será, falando precisamente, que eu imagino quando a concebo dessa maneira? Consideremo-lo atentamente e, afastando todas as coisas que não pertencem à cera, vejamos o que resta. Certamente nada permanece senão algo de extenso, flexível e mutável. Ora, o que é isto: flexível e mutável? Não estou imaginando que esta cera, sendo redonda, é capaz de se tornar quadrada e de passar do quadrado a uma figura triangular? Certamente não, não é isso, posto que a concebo capaz de receber uma infinidade de modificações similares e eu não poderia, no entanto, percorrer essa infinidade com minha imaginação e, por conseguinte, essa concepção que tenho da cera não se realiza através da minha faculdade de imaginar.

    E, agora, que é essa extensão? Não será ela igualmente desconhecida, já que na cera que se funde ela aumenta e fica ainda maior quando está inteiramente fundida e muito mais ainda quando calor aumenta? E eu não conceberia claramente e segundo a verdade o que é a cera, se não pensasse que é capaz de receber mais variedades segundo a extensão do que jamais imaginei. É preciso, pois, que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera e que somente meu entendimento é quem o concebe; digo este pedaço de cera em particular, pois para a cera em geral é ainda mais evidente. Ora, qual é este cera que não pode ser concebida senão pelo entendimento ou pelo espírito? Certamente é a mesma que vejo, que toco, que imagino e a mesma que conhecia desde o começo. Mas o que é de notar é que sua percepção, ou a ação pela qual é percebida, não é uma visão, nem um tatear, nem uma imaginação, e jamais o foi, embora assim o parecesse anteriormente, mas somente uma inspeção do espírito, que pode se imperfeita e confusa, como era antes, ou clara e distinta, como é presentemente, conforme minha atenção se dirija mais ou menos às coisas que existem nela e das quais é composta.” (René Descartes, Meditações.)

  • Agosto foi o mês de lançamento de meu livro Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia, disponível no site da editora, na Amazon e em outros canais. Neste mês inicial, tive oportunidades felizes de apresentá-lo a colegas, amigos e também a pessoas que não mantêm um contato profissional ou mais sistemático com a filosofia. Gostaria de registrar aqui um pouco do que tenho falado para contextualizar o material e também do que tenho ouvido em retorno.

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  • Estou relendo o artigo “Reciprocal Effects Between Adolescent Externalizing Problems and Measures of Achievement“, escrito por Friederike Zimmermann e um grupo de pesquisadores alemães. A pesquisa investiga a relação entre desempenho acadêmico e comportamentos agressivos (também chamados de problemas de externalização). A correlação entre os dois domínios é reconhecida e explorada pelo menos desde o início do século XX.

    Professora e alunos.
    Foto de National Cancer Institute na Unsplash
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  • Em janeiro de 2023, iniciei um projeto que não sabia quando nem como poderia finalizar. Foi um projeto de férias. Esperava avançar com ele durante o ano letivo, mas isso não aconteceu. Repeti a receita em 2024 e o resultado foi o mesmo: um pouco de avanço e nova interrupção.

    Caneta a escrever.
    Foto de Aaron Burden na Unsplash
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  • Previamente, tratamos de Homero e Hesíodo e de alguns filósofos pré-socráticos. Desta vez, falamos sobre Sócrates a partir da Apologia de Sócrates, escrita por Platão. Os principais elementos do contexto da vida e filosofia socrática são o advento da democracia ateniense e o movimento dos chamados sofistas.

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  • Ao longo dos três últimos anos monitorei o tempo que gasto com tarefas do trabalho (com esta ferramenta), inicialmente de modo mais amplo e depois apenas com foco em atividades relacionadas à pesquisa. Os objetivos iniciais do monitoramento combinavam um pouco curiosidade e busca de autoconhecimento, a necessidade de manter um registro para relatórios ao final do semestre e também uma pretensão de entender em que medida a atividade de pesquisa era compatível com a carreira de professor de um instituto federal.

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  • Esta semana dá sequência à atividade introdutória sobre Homero e Hesíodo. Desta vez, tratamos dos chamados filósofos pré-socráticos. A seguir temos um conjunto de informações para contextualização sobre o período (alguns nomes, datas e principais temas), algumas citações sobre o termo grego ‘physis’, que é central no período e uma seleção de fragmentos do filósofo Heráclito. Há algumas sugestões de leituras adicionais ao final.

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  • Estou organizando um conjunto de atividades extracurriculares. Uma delas é voltada à leitura de fragmentos de textos clássicos da filosofia. Postarei a sequência de atividades aqui, como forma de registro e disponibilização dos materiais a serem trabalhados.

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  • Trabalho com vários estudantes que têm algum tipo de diagnóstico que justifica um tratamento pedagógico diferenciado para sua aprendizagem. Na maioria desses casos, os estudantes apresentam dificuldades que exigem algum tipo de suporte especial. Nenhum dos estudantes com que trabalho atualmente apresentou diagnóstico de altas habilidades ou superdotação. Ainda assim, dependendo da definição utilizada, entre 2% e 5% da população se enquadra nessas condições.

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