O texto abaixo é o sexto capítulo de meu livro Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia (Campinas: Pontes Editores, 2025). Após o texto, há um exemplo de atividade de compreensão textual baseada no capítulo.

A julgar por quanto gastam em apostas, muitas pessoas acreditam que um dia ganharão na loteria. Só no Brasil, esse valor tem passado dos 20 bilhões de reais por ano. Alguns apostadores chegam a dizer que sabiam que ganhariam. Isso aconteceu com dois australianos. Um deles, cujo nome não foi divulgado, disse ter recebido a revelação em um sonho, três semanas antes do resultado. O segundo, o matemático Stefan Mandel, disse que “sabia que ganharia um primeiro prêmio, seis segundos prêmios, 132 terceiros prêmios e milhares de prêmios menores”. Mas será mesmo adequado dizer que sabiam que ganhariam o prêmio? Para responder a essa pergunta, precisamos continuar nossa caminhada com Platão e examinar uma terceira condição que considerou necessária para o conhecimento proposicional: a justificação. Como veremos, a justificação tem proximidade com o argumento, mais um item para adicionarmos à nossa caixa de ferramentas filosóficas.
Quando encaramos a justificação como condição necessária para o conhecimento, a ideia subjacente é que ter conhecimento sobre um assunto envolve mais do que ter uma crença verdadeira. É necessário também conseguir dizer por que deveríamos aceitar a verdade da proposição em questão, isto é, fornecer uma razão para considerá-la verdadeira. Voltando à nossa analogia, se acreditar é como confiar que uma carta inserida no castelo ficará em pé e se a verdade depende do que acontece com a carta quando a soltamos, podemos entender a justificação como um esforço para posicionar bem a carta junto às demais antes de soltá-la.
Como fizemos antes, para dizer se determinadas condições são necessárias para alguma coisa, podemos usar o raciocínio e a imaginação e construir um experimento de pensamento. Dessa vez, vamos nos inspirar nos sortudos australianos e imaginar três situações em que alguém acredita que ganhará na loteria na próxima sexta-feira. As situações são como descritas a seguir.
Situação 1. Como o australiano anônimo, Marta acredita que ganhará na loteria porque apostou em números relacionados a um sonho muito especial que teve na semana passada. Marta já jogou em números relacionados aos seus sonhos antes, já acreditou fortemente que ganharia, mas até agora nunca ganhou o prêmio. Como sua crença está baseada em uma superstição que até então apenas falhou, podemos dizer que essa é uma justificação ruim para acreditar que ganhará o prêmio.
Situação 2. Como apostadores menos convictos, Júlio acredita que ganhará o prêmio, mas por nenhuma razão especial. Ele pensa que admitir friamente a insignificância de suas chances não ajudará em nada e, por isso, prefere acreditar que vai ganhar. Sua crença não tem, portanto, nenhuma justificação significativa.
Situação 3. Como o matemático Mandel, Ícaro acredita que ganhará na loteria porque colocará em prática um plano bem elaborado para vencer. Ele estudou as probabilidades do sistema lotérico, tentará esgotá-las com milhões de apostas e já venceu mais de dez prêmios dessa maneira. Por isso, sua situação é diferente da dos demais: ele tem uma boa razão para acreditar que ganhará o prêmio. Ele foi cuidadoso o suficiente ao conectar sua carta ao restante do castelo, recorrendo a um plano completo capaz de transformar em realidade o desejo de vencer.
Vamos imaginar ainda que, nas três situações imaginadas, os apostadores ganham na loteria na próxima sexta-feira, ou seja, que a proposição em que cada um acredita é verdadeira.
Qual das três pessoas imaginadas deveríamos dizer que sabia que ganharia na loteria na próxima sexta-feira? É sobre esta questão que precisamos refletir para concluir nosso experimento de pensamento. Se você pensa como Platão e diversos outros filósofos que se dedicaram ao assunto, considerará mais razoável dizer que apenas Ícaro sabia que ganharia o prêmio. Os outros dois apenas tiveram sorte, não apenas de vencer o prêmio, mas de acreditar em uma proposição, sem ter uma boa razão para fazê-lo, e a proposição acabar se tornando verdadeira. Isso levou uma grande tradição filosófica a defender que, para haver conhecimento proposicional, é necessário que se (1) acredite em uma proposição, (2) que essa crença esteja apoiada em uma boa justificação e (3) que a proposição seja verdadeira.
Buscar acreditar apenas em proposições amparadas em boa justificação é uma das coisas mais importantes a fazer se quisermos pensar melhor. Fazer isso é apostar que a razão humana, quando bem conduzida, oferece o melhor caminho disponível para conhecermos a realidade. Para levar esse ideal adiante, precisamos desenvolver estratégias para, em primeiro lugar, identificar a presença de uma justificação e, em segundo, poder avaliá-la.
Uma das maneiras mais simples em que uma justificação se apresenta é em frases como as que vimos antes: “Ícaro ganhará na loteria porque colocará em prática um plano bem elaborado para vencer”. A expressão “porque” divide a frase em duas partes com papéis diferentes na justificação: a proposição posterior a ela justifica a proposição que a antecede. Em outras palavras, a proposição que vem antes de “porque” recebe justificação da proposição que vem depois.
Uma segunda maneira de apresentar uma justificação é na forma de um argumento explícito. Um argumento é um conjunto de proposições em que algumas (chamadas de premissas) são oferecidas em apoio a outra (chamada de conclusão). Podemos reapresentar a justificação anterior com o seguinte argumento:
Premissa 1: Ícaro tem um plano bem elaborado para vencer na loteria. Premissa 2: Ícaro colocará o plano em prática.
Conclusão: Ícaro ganhará na loteria.
A barra horizontal, chamada de barra de conclusão, pode ser lida como um “logo”, “portanto” ou “por isso”. Ela divide o argumento em duas partes. As proposições localizadas acima da barra são as premissas do argumento e buscam justificar a conclusão, localizada abaixo dela. Podemos dizer que justificar uma proposição é argumentar a seu favor.
Tornar um argumento explícito é uma prática que pode nos ajudar a pensar melhor. Ao refletir sobre o que nos leva a acreditar em algo, por vezes concluiremos que alguma crença não estava amparada em boas razões. Essa reflexão é uma forma de examinar criticamente a maneira como pensamos, como se estivéssemos inspecionando as conexões entre as partes de nosso castelo de cartas. Podemos recorrer a argumentos para pensar sobre a justificação de proposições que tratam dos mais variados assuntos, incluindo o mundo natural e humano, os números, os conceitos e os valores. No restante do livro, examinaremos várias propostas sobre o que torna uma justificação boa ou adequada, dependendo do tipo de questão que estivermos considerando.
Podemos resumir o que vimos neste capítulo assim: para termos conhecimento proposicional, precisamos não apenas acreditar em uma proposição verdadeira, mas também fazê-lo com base em uma boa justificação. Justificar uma crença é apresentar uma razão para aceitar a sua verdade e podemos explicitar essa razão na forma de premissas a favor de uma conclusão. Os capítulos seguintes tratam de alguns tipos de argumento que se mostraram bem-sucedidos na tarefa de justificar o conhecimento. Examinar esses argumentos nos permitirá refletir sobre por que pensamos da maneira como pensamos quanto a uma variedade de assuntos, tanto na filosofia quanto fora dela.
Nota: Capítulo 6. Célia Teixeira (2012) trata da relação entre justificação e conhecimento e Cezar Mortari (2001, Capítulo 1) aborda a conexão entre argumentos e justificação. Sobre apostadores brasileiros, ver Jéssica Anjos (2024). Sobre os australianos ver as reportagens “Australiano usa […]” (2023) e “Australian man […]” (2018)..
Atividade:
Este é um exemplo de uma atividade de compreensão textual realizada em uma aula de filosofia no ensino médio. Ela foi produzida no contexto de minhas aulas no Instituto Federal Farroupilha e pode ser reproduzida e adaptada livremente–preferencialmente com devido crédito ;)
Para ter suas respostas corrigidas, acesse esta versão no Google Forms.
Professores podem baixar uma cópia do formulário para enviar aos seus estudantes.
As questões abaixo devem ser respondidas de acordo com o texto “Justificação e argumento”. Analise com atenção, marque primeiramente a lápis e depois confirme a resposta final à caneta. Bom trabalho!
1. Considere os enunciados abaixo:
I. Justificar uma proposição é dizer por que deveríamos aceitar a verdade dessa proposição.
II. Podemos pensar de maneira mais qualificada se refletirmos sobre o que justifica nossas crenças.
São verdadeiros:
( ) apenas I
( ) I e II
( ) apenas II
( ) nenhum
2. Considere os enunciados abaixo:
I. Segundo o texto, Marta tinha a crença verdadeira de que ganharia na loteria, mas ainda assim não tinha conhecimento.
II. Segundo o texto, Ícaro tinha uma boa justificação para acreditar que ganharia na loteria na próxima sexta-feira.
São verdadeiros:
( ) apenas I
( ) I e II
( ) apenas II
( ) nenhum
3. Considere os enunciados abaixo:
I. Segundo Platão, crença, verdade e justificação são condições necessárias para o conhecimento proposicional.
II. Segundo Platão, uma pessoa pode saber que 3+7=12, desde que tenha uma boa justificação para pensar assim.
São verdadeiros:
( ) apenas I
( ) I e II
( ) apenas II
( ) nenhum
4. Analise o argumento abaixo:
(1) Todo brasileiro é humano.
(2) Todo humano é mortal.
(3) Todo brasileiro é mortal.
Considerando o argumento, marque a única alternativa incorreta:
( ) As proposições (1) e (2) são as premissas do argumento.
( ) A proposição (3) é justificada pelas premissas.
( ) A proposição (3) justifica as proposições (1) e (2).
( ) As proposições (1) e (2) dão uma razão para aceitar a verdade da proposição (3).
5. Suponha que Alice acredite que há maçãs maduras atrás da cortina, que a crença de Alice é verdadeira, mas que Alice não tem uma boa justificação para essa crença.
I. Alice sabe que há maçãs maduras atrás da cortina.
II. Uma outra pessoa poderia saber que há maçãs maduras atrás da cortina.
São verdadeiros:
( ) I e II
( ) apenas I
( ) apenas II
( ) nenhum

